terça-feira, 9 de junho de 2020

Contos de felicidade 2 - O velho e o piano

Qual é a idade certa para se parar de sonhar? Outro dia perguntei a uma conhecida, na casa de seus 70 anos de idade, quais eram seus sonhos. Fiquei surpreso quando ela me respondeu “não tenho mais, já realizei todos”.

Existem dois fatores altamente potencializadores de felicidade em nossas vidas: sonhar e realizar sonhos. Se tem algo que eleva e muito o seu nível de felicidade é você olhar para trás e ver quantas coisas realizou em sua jornada. Cada bandeira que fincamos em nossos “Everests” nos traz uma sensação de realização maravilhosa e nos impulsiona a novos desafios. 
Por outro lado, olhar para frente e ver quantas coisas podemos realizar também é algo que pode nos trazer muita felicidade. Olhar para o futuro com olhar otimista e nos lançarmos em desconhecidos desafios nos tira de nossa zona de conforto como alguém que nos arranca da cama pela manhã e nos diz “ei, a vida ainda não acabou, ainda tem muita coisa nova para viver!”
O problema é quando sonhamos muito e realizamos pouco. Sonhamos em conhecer a Europa mas nos contentamos em passar o feriado nas cidades serranas de São Paulo. Sonhamos em estudar no exterior e nos contentamos com uma pós-graduação online. Sonhar e não realizar nos traz uma sensação de fracasso, incompetência, falta de determinação e outras emoções negativas que inundam a nossa mente. Aí começamos a contar mentiras para nós mesmos no intuito de justificar a nossa falta de ação. “Estou muito ocupado, estou muito velho, agora tenho que cuidar dos filhos” e por aí vai a lista de desculpas que inventamos para vivermos tranquilos com nossas consciências.
Sonhar não necessariamente precisa ser algo colossal. Pode ser ler um livro, tocar um instrumento, assistir a uma peça de teatro, ver um neto se formar, dormir uma noite num hotel chique da capital, etc e tal.
Pense que a vida que você tem hoje está te dando uma chance única para fazer feitos extraordinários. Extraordinário não quer dizer que você irá mudar o mundo, mas simplesmente que você irá fazer algo significante para você. 
Foi o que aconteceu com um velho professor de geografia.

“A história de hoje se passou há 10 anos atrás,
Quando um velho professor de geografia, que já havia ensinado muito na vida, resolveu sentar na cadeira de aluno e aprender algo que ainda não sabia.
Resolveu aprender a tocar piano, sua paixão platônica de infância. E de sua falecida esposa também. Só que ele sempre arrumara desculpas para não aprender, que estava muito velho, que estava ocupado, até o dia que ele percebeu, que dentre todas as pessoas, só uma havia se prejudicado...ele mesmo.
Naquela manhã de um dia nublado, ele então caminhou determinado, como quem ia para uma missão. Vestiu seu moletom, pegou os seus óculos de grau, ajustou o chapéu e a tiracolo, uma sacola de mão.
Repentinamente um calafrio tomou conta de sua alma e da sua mente, e seu corpo foi tomado por uma juventude efervescente.
Aquela mente, que não tinha mais perspectivas, começou a se encher de vida e a enxergar um mundo completamente novo pela frente.
Aprender, tocar, sonhar, se permitir algo novo, errar, quantas coisas novas ele poderia viver e experimentar. Por outro lado uma sensação de vazio, um medo de quem sabia muito e ao mesmo tempo sabia nada.
Aquele senhor de 78 anos de idade havia descoberto uma coisa chamada humildade. Essa é uma palavra que só chega em nossa vida quando admitimos que, mesmo apesar de todo nosso conhecimento, nós nunca seremos donos da verdade.

Começou então a acelerar seus passos lentos e começou a ficar ansioso só de pensar em chegar ao seu destino.
Já pensava em todas as músicas que queria aprender a tocar: clássica, rock, bolero, jazz, e todos os outras músicas que ele escutara desde quando era um menino.

A primeira aula foi um desastre. Os dedos envelhecidos e lentos martelavam as teclas e o som que ele imaginou que iria sair não saiu
O primeiro pensamento que veio em sua mente foi o de desistir, chutar tudo para o alto, mas ele não desistiu. 
Lembrou então da sensação maravilhosa que havia sentido, aquela de estar vivo.
Lembrou das vezes que queria começar a ter aulas, mas que tinha desistido
Lembrou do sonho de criança seu e de sua esposa, mas que por covardia, deixou adormecido.
E isso lhe acendeu a motivação
E ele foi para a aula todo santo dia, óculos tortos, chapéu na cabeça, moletom e uma velha sacola na mão.
Até que um dia, inesperadamente, aquele senhor foi convidado para tocar em sua primeira audição. E ele aceitou. Iria tocar uma música simples, fácil, mas que muito lhe agradava.
Quando chegou o grande dia, ele chegou mais cedo ao lugar, arrumou as cadeiras, se ajustou no piano e começou a praticar.
Quando chegou sua vez, sentou-se ao piano e abriu aquela velha sacola, e de lá tirou uma foto antiga da esposa, que eu acho até que era da época de escola. Começou a dizer então palavras que vieram do fundo de seu coração: “Essa música eu dedico, à minha querida parceira, que sempre acreditou em mim e que me incentivou a tocar. Por muitos anos eu fugi dos sonhos que eu tinha pra mim, e com um monte de desculpas cheguei até me enganar. Hoje estou aqui enfrentando meus medos, lutando pelos meus sonhos, pelo meu resto de vida. E eu descobri que a vida é assim, que só devemos parar de sonhar e realizar quando essa curta vida que temos chegar ao seu fim”.
E aquele senhor tocou sua música simples do mais profundo de sua alma. E para sempre ele prometeu que nunca mais abandonaria nenhum sonho seu”.

No dia em que abandonarmos nossos sonhos, a nossa alma também nos abandonará e irá viver num lugar escuro e vazio!

Prof. Marcelo Sattin é professor de Liderança dos cursos de MBA da Franklin Covey, Mestre em Criatividade e Inovação e palestrante sobre Felicidade e outros temas corporativos. Saiba mais no site: www.marcelosattin.com

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