É muito comum chegarmos à crise da meia idade reflexivos sobre o tema “qual é o sentido da vida?”. O que estamos fazendo de passagem neste planeta e qual tem sido a nossa contribuição para a sociedade? O quanto estamos fazendo melhor a vida das pessoas ao nosso redor, nem que seja um pouquinho?
Eu gosto da imagem do corredor que está indo em direção a pira olímpica com a tocha em suas mãos, e quando ele percebe, ela está apagada há algum tempo. E isso acontece com todos nós, estamos numa corrida para pagar contas, subir de cargo, trocar de carro e muitas vezes nem sabermos o propósito disso tudo. Porque estamos fazendo o que fazemos?
Perguntar sobre a nossa contribuição real para a sociedade nos direciona para o nosso propósito de vida. Ter um significado no que fazemos é o que nos motiva a prosseguirmos nossa jornada, superarmos nossas adversidades e nos transformarmos como pessoas. A história de hoje fala um pouco sobre rever as nossas motivações e nos ajuda a refletir sobre como podemos contribuir para melhorar a vida das pessoas à nossa volta.
“Um tiro no ar,
uma multidão avança
a respiração aumenta
as pernas se alternam gerando velocidade
cadência e sincronia,
o coração acelera e também encontra seu ritmo.
Aquela multidão se dispersa,
alguns avançam mais rápido, compassados, ritmados.
Grande parte fica pra trás, uns andam, outros correm,
mas todos seguem o mesmo alvo, cruzar a linha de chegada.
No meio de todos, um corredor acelera a passada, perna ante perna.
O chão passa rapidamente por baixo de seus pés como uma gigante esteira ergométrica.
Doze quilômetros, ele mantêm firme seus passos.
Até ali, ele já havia ultrapassado muitos adversários, já havia subido, descido e, segundo o marcador, já estava na metade do itinerário. A maratona havia chegado ao meio.
Coração bateu forte com o feito.
A cabeça agitada pensou na linha de chegada que tanto lhe desafiava, pensou na família, nos amigos presentes.
Trinta e dois quilômetros...algo aconteceu e ele se sentiu diferente. Seu coração descompassado, que batia empolgado, parou de repente.
Mais tarde, naquele mesmo dia, o atleta foi encontrado sem vida em sua casa.
O corpo espalhado no sofá estava morto, mas ainda respirava.
Aqueles mesmos olhos, que brilhavam ao ver a linha de chegada, sombrios estavam, como que sua alma tivesse infartado.
O coração batia, mas apenas para bombear sangue. E era só isso.
A voz, sem variação de tons e sem vibração, resmungavam palavras mornas e sem nenhuma emoção.
Quem havia partido aquele dia não foi sua vida. Foi algo muito maior. Foi sua motivação. A motivação de cruzar a linha de chegada, mesmo que em último. A motivação para enfrentar climas, ladeiras, dores, câimbras e adversários sumiu e no lugar ficou um buraco.
Tênis, roupas, suor, calor, subida, respiração, enfim nada pesa mais para um atleta do que a falta de motivação.
“Por que estou fazendo isso?” - ele repetia mentalmente.
E não encontrava sentido.
Ele se sentia como o corredor com a tocha apagada, que só percebeu que estava sem fogo pouco tempo depois de ter dado a largada.
Se o sentido da vida fosse correr, por que todos os outros não estavam correndo? – se perguntava ele.
Do outro lado da cidade, um boxeador sentado em seu corner se perguntava. “Será que o sentido da vida é simplesmente ver quem bate mais forte?”
Já num bairro afastado, um empresário entrou em sua sala, abaixou a persiana e olhou-se no espelho. Questionou-se sobre a sua vida e pra que ele queria ganhar tanto dinheiro...um dia vou morrer e tudo isso vai ficar pra um herdeiro, começou a pensar.
Foi então que eles tiveram uma visão, não de seus próprios umbigos, que é para onde o ser humano olha desde os tempos antigos.
Eles viram as pessoas em sua volta. Mais precisamente, o impacto que eles causavam nas pessoas ao redor deles.
O corredor se lembrou do obeso que ele havia inspirado a correr e de todos os 50 quilos que a corrida lhe fizera perder.
O boxeador lembrou-se do jovem drogado que, ao entrar no ringue pela primeira vez, deixou para sempre o crack de lado.
O empresário, que foi o mais duro de coração, somente mudou sua mente quando um funcionário entrou pela porta e disse : “obrigado patrão, se num fosse você, num tinha dinheiro para colocar comida em casa não! Minha esposa ficou desempregada e, pra complicar a situação, ela ainda por cima está grávida. Deus foi muito bom comigo, por você ter nascido e ter me dado esse emprego. Hoje tem comida em casa, as contas tão paga e minha vida é um sossego. Dizendo isso, o funcionário abraçou o patrão, muito emocionado e agradecido. Naquele momento, as peças se encaixaram neste quebra-cabeça chamado vida, e ela começou a fazer sentido. E o seu chamado não era ser dono de empresa mas sim ajudar pessoas a terem dignidade, uma vida melhor, e sair da pobreza. E isso queimou seu coração.
E as motivações que haviam morrido há poucas linhas acima, ressuscitaram mais forte do que nunca. Estavam todos cheios de vida. Pois agora eles tinham um sentido e que não era o próprio umbigo, mas sim ajudar as outras pessoas a terminarem a sua própria corrida.
Prof. Marcelo Sattin é professor de Criatividade, Inovação e Liderança do MBA da Franklin Covey. Ele também é Mestre em Criatividade e Inovação (Portugal) e apaixonado por desenvolvimento de pessoas. Marcelo Sattin acredita que o ser humano pode se tornar incrível quando o seu potencial é desenvolvido da maneira correta. Email: marcelo@marcelosattin.com



